ACERCA DOS OLHOS DA ÁGUIA
Confesso aos amigos portelenses que não gosto muito de ler as ponderações dos jurados sobre as notas dadas na avenida. Traumatizado por tantos anos em que a emenda (as justificativas) saíram-se ainda piores do que o soneto (as notas dadas), eu às vezes pulo essa parte de ler a publicação dos documentos com as explicações. Ou melhor, demoro um pouquinho, leio os comentários dos outros, ganho um gás e, então, vou lá – já vacinado – conferir.
A sensação que me causam as justificativas é muito estranha. Há casos em que os jurados parecem querer corrigir o que os carnavalescos fizeram. Como se soubessem mais do que eles. Isso até funciona em alguns que a gente sabe que erram em determinados pontos. Ou em outros que, de fato, figuram no grupo de elite da festa sem que a gente saiba exatamente o porquê, tamanha a sua inconsistência artística. Mas quando essa tentativa de corrigir ou criticar não aponta um dado muito concreto e é direcionada a um daqueles nomes que a gente sabe que não erra naquilo, soa pretensioso e arrogante. Daí a minha irritação.
Por isso, não pretendo transformar uma coluna sobre a minha Portela em uma análise sobre que os jurados pontuaram ou justificaram nas notas da minha Portela.
Penso que a gloriosa Majestade do Samba, tendo o tamanho que tem, não pode ser uma águia defeituosa. Explico. Se tem asas grandes para voar tão alto como voou em toda a sua história, se tem um bico grande para fazer ressoar seu canto vencedor como sempre fez, se tem garras grandes para carregar os troféus de suas tantas vitórias... ora, há de ter, também, olhos grandes para não apenas enxergar, mas também “enxergar-se”. Considero importante, em termos de gestão, observar as justificativas técnicas dos jurados. É claro que elas também contêm muita coisa preciosa e relevante. Mas acredito piamente que a Portela deva ter seus próprios olhos aguçados e abertos para enxergar, por si mesma, onde errou e no que precisa melhorar.
Vou mais além: lembram do samba-enredo “Tributo à Vaidade”? Era a própria Portela, em primeira pessoa, falando de si mesma. Um de seus versos dizia que ela perguntou ao espelho qual das demais seria mais linda que ela própria. Não preciso dizer mais nada: a Portela é uma escola que se olha no espelho!
A dúvida é: o que ela está vendo de si mesma? Que juízo faz a seu próprio respeito? Enxerga-se a Portela como, de fato, ela é, ou como imagina que fosse? Espera que outro, além do seu próprio espelho, diga-lhe como ela está, ou tem um senso próprio e assertivo de si?
O povo de Oswaldo Cruz e Madureira sabe que, independente dos julgadores, um chão vibrante e apaixonado de escola como o nosso tem força redobrada a cada ano para arrebatar a avenida. E por isso a comunidade portelense costuma pisar forte a Sapucaí, arrepiando geral. A questão, já citada por mim em texto anterior, é expulsar esse ranço de conformação com barracão atrasado, infraestrutura oscilante, autossuficiência (sim, agora é assim que se escreve!) e “empurra-com-a-barriga” que acabou criando um discurso conformista sobre perder pontos em fantasias e alegorias.
“Esses pontos a gente sabia que podia perder!” – diziam muitos.
Como assim? Portela desfilando ciente de que, nos seus esforços, alguma coisa saiu deficiente???
Não pode!
Faz tempo que deixamos de ser “Vai Como Pode” e viramos PORTELA! Não vai mais “como pode”... vai como deve! Vai como Majestade, vai como Campeã... vai como PORTELA!!!
Ou eu estou enganado, enxergando diferente???
Então, muito embora eu considere relevante conhecer as justificativas dos jurados, acho ainda mais relevante conhecer o que nós, que estamos DENTRO, conhecemos. Não virar a cara para os fatos. Não fingir que não temos os problemas que temos. Não culpar a caneta dos jurados e esquecer a nossa.
Mudanças muito importantes foram feitas em 2011, e vimos o resultado. A escolha do carnavalesco, do enredo e do samba da Portela foram exemplos de como a escola ergueu seus trunfos para brilhar na avenida. O samba foi uma comoção nacional como há muito não se via. O carnaval acabou, o desfile acabou, e até hoje se fala naquele samba. Muita coisa se modernizou também na gestão. Mas algumas coisas referentes à mentalidade da escola precisam, ainda, ser mudadas.
Então, se sabemos que há um buraco na harmonia estrutural da escola, é preciso tapá-lo. O planejamento de carnaval precisa pensar num enredo inventivo, original, sem repetecos, mas que favoreça a alma da escola, para que possa favorecer a alma dos compositores, para que possa favorecer a criação de fantasias.
E é preciso, fundamentalmente, que o carnavalesco tenha condições de executar seu projeto criativo em, no mínimo, 95% daquilo que foi criado. Se quiserem dar um desconto de 5% para o devaneio que todo artista tem, que se discuta muito e se pense muito a respeito. Isso quando falarmos de um resíduo de apenas 5%. Porque não se pode perder nem um centésimo a mais que isso na elaboração do projeto. Se a escola contratou o artista, é porque delegou a ele o desenvolvimento do projeto, confiando em seu trabalho. Não se pode destituir o artista da oportunidade de executar tudo aquilo que planejou. E cabe aos dirigentes darem a estrutura para que o artista tenha seu trabalho totalmente executado.
Portanto, o que eu espero da Portela em 2013 tem MUITO MENOS a ver com o que os jurados justificaram em suas notas deste ano, e MUITO MAIS a ver com tudo o que eu vi, soube e ouvi em Oswaldo Cruz e Madureira.
A Portela 2012 teve todos os seus segmentos fartamente premiados em todos os quesitos que dependeram de talentos individuais dos representantes de seus segmentos. Bateria, passistas e compositores foram espetaculares! nesses segmentos em que os talentos tiveram liberdade de execução a 100%, foi um show! Então o barracão da escola precisa ter esse entendimento para afiar a Portela como um todo.
Com essa equipe cheia de entusiasmo, com esse chão de escola contagiante, com essa torcida apaixonada e com esse carnavalesco talentoso, o que eu espero da Portela em 2013 é que nem na quadra, nem nas páginas de justificativas de jurados apareçam comentários sobre imperfeições – esperadas ou não – em seu desfile.
Olhos de águia eu tenho certeza que a Portela tem para, desde agora, ver tudo isso!
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A Portela de Verdade e a Verdade da Portela
Fez-se o sonho! Veio à avenida o mar de emoção, verdade e paixão da Portela. Naquele domingo festivo, a azul-e-branca de Madureira entrou na pista com uma águia em ouro barroco, adornada com as riquezas da eterna campeã do carnaval. Imponente, majestosa, vibrante. Trabalhando na cobertura do carnaval, eu estava na pista do setor 3. As Lágrimas de emoção quase não me deixavam ver o desfile.
A Portela, a Velha Portela, tinha Paulinho da Viola, Clara Nunes, Marisa Monte, Dodô, Monarco, Vanessa da Mata, Milton Gonçalves... a Portela tinha, muito mais que tudo, um chão irresistível de portelenses “guerreiros da águia”, uma comunidade vibrante e emocionada, levando às últimas consequências o canto uníssono de seu lindo samba.
A Portela de Paulo Menezes tinha um enredo e uma concepção de enredo com alma e cara de Portela, com vitalidade de sombra de Jaqueira, com força propulsora de sangue azul dos bambas do passado e do presente, misto de tradição e renovo nessa paixão que é amar seu pavilhão. Paulo foi mais que um carnavalesco: foi um artista sensível que teve a finesse de olhar para a Portela, ouvir os portelenses, andar na quadra, abraçar a comunidade e, assim, desenhar um tema que tivesse o real espírito da escola. Sem vaidades pessoais, sem pretensões pessoais.
Foi linda a emoção incontida dos portelenses em seu desfile de 2012. Eis a Portela de Verdade.
Mas esse meu texto propõe-se em dividir-se em dois motes. Falamos, sim, da Portela de Verdade. Falemos agora sobre “A Verdade da Portela”.
Vimos a escola ser flagrantemente injustiçada em notas de harmonia e bateria. Ridícula e vexatória prova cabal de que os jurados de escola de samba não entendem do que julgam. Ou fazem vista grossa e “seguram notas” para as escolas que passam depois. O que me surpreendeu, porém, foi ouvir de muitas pessoas a frase: “a gente já sabia que ia perder pontos em fantasias e alegorias, mas harmonia e bateria, não”.
Reparem isso. O portelense “admitindo” perder ponto em fantasias e alegorias.
Como assim?
Quer dizer que a Portela desfila ciente de que esses pontos ela perderá? Ela se permite... ela admite... ela (vou além!) “consente” que seu carnaval fique pronto, tenha um lindo samba, uma bateria espetacular, um chão de comunidade emocionante, um carnavalesco de ponta... e fantasias e alegorias abaixo da nota?
Como é que uma escola que tem um carnavalesco requintado, caprichoso, detalhista como Paulo Menezes pode ser tão convicta de que vai perder pontos em quesitos plásticos?
Eis a “verdade da Portela”. Está fazendo carnaval que não aposta na totalidade dos quesitos. Quando eu era criança e me apaixonei por essa Portela, o que todo mundo dizia a plenos pulmões é que as fantasias da Portela sempre foram de um luxo e de uma riqueza incomparáveis. Eu sempre ouvi dizer que quatro notas 10 em fantasia, para a Portela, eram dever de casa quitado. Agora não! Agora a gente coloca tudo pronto e esquece o barracão. Deixa o trabalho do carnavalesco comprometido, fica sem funcionário na semana do desfile, bota torcedor pra trabalhar em desafogo no barracão.
Carnavalesco é uma profissão muito sacrificada. Muitas das coisas imperfeitas, mal executadas ou mal acabadas que a gente vê na avenida são fruto da falta de recursos para que o projeto completo do artista possa chegar à avenida. Quem conhece o trabalho do Paulo Menezes sabe que dele não se podem esperar alegorias menores, carros sem acabamento, fantasias incompletas, alas não entregues. Isso não vem dele. De onde virá, então?
A Portela de verdade existe. Está viva. E gloriosa. É uma Portela que, em tantos anos sem título, multiplica sua torcida, tem cada vez mais jovens apaixonados e – fato! – ninguém consegue alcançar em número de campeonatos. A Portela de verdade desfila com graça, com raça, com gana, vibrante, emocionante.
Mas a “verdade da Portela” é que ela não pode ganhar o carnaval no grito, no suor e no sangue, se não se preparar dentro de seu barracão – leia-se: em sua gestão – para colocar 100% do projeto de seu carnavalesco na rua. E não adianta chamar gente medíocre pra facilitar o trabalho: tem que ser carnavalesco de ponta, tipo o Paulo Menezes, mas com 100% do projeto desenvolvido! A quadra da Portela é um sonho, mas não pode virar só bravata: ela tem que fazer eventos o ano todo, shows com seus inúmeros bambas... o que não falta é atrativo ligado à escola para arrecadar fundos a serem investidos num grande carnaval. Não é subvenção, nem patrocínio que tão somente podem envergar o cabresto de uma escola campeã. Um planejamento sério, desde agora, precisa ser feito para a escola lucrar dentro de suas dependências, para que possa pagar funcionários e fazer um grande carnaval.
No dia em que essa Portela de Verdade puder superar as dificuldades impostas por essa “verdade da Portela”, então seremos novamente soberanos.
E nunca mais ouviremos um portelense mostrar-se resignado ao perder nota em fantasia e alegoria.
Desculpem, senhores, mas isso não é Portela!
Vimos este ano a Portela de Verdade! Mas ninguém se iluda: está mais do que na hora de mudar esse quadro, e fazer com que a “verdade da Portela” pare de ofuscar o brilho da Portela de Verdade!
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Eis a Altaneira!
Em apenas duas semanas. um turbilhão de emoções!
A reabertura de uma quadra linda, festiva, imersa no apaixonante azul que nem Paulinho da Viola soube definir em sua célebre composição!
Naquela oportunidade, uma aula de samba do Mestre Monarco capitaneando o show da Velha Guarda, que tanta falta faz em nossas feijoadas. Na semana seguinte, a gloriosa passagem pela avenida num ensaio técnico eletrizante e de rara beleza. Depois disso... descanso? Nada: um tributo a Paulinho da Viola, com a saída do Bloco Timoneiros da Viola.
Pois é. O orgulho de ser Portela está solto nas ruas.
O orgulho de ser Portela enfeitou o asfalto, na noite de ensaio técnico em que as arquibancadas do Novo Sambódromo foram definitivamente testadas: tremeram, sacudiram, foram poderosamente ricocheteadas pelo ribombar de trovões da bateria Tabajara de Mestre Nilo Sérgio, pelo canto uníssono da comunidade de Oswaldo Cruz e Madureira, pelo bailado esvoaçante de Rogerio Dornelles e Lucinha Nobre, pelo sangue novo de águia menina de Diogo Fran e Jeane Martine, pelo revoar de Jefferson e Katia, pela intensidade dramática da imorredoura Dodô à frente de suas damas, pelo peso histórico da Velha Guarda mais garbosa do planeta, pelo vozeirão arrebatador de Gilsinho, pela imponência da Comissão de Frente, pela poderosa arte singular da ala de passistas, pelo giro cadenciado da roda de baianas, pela paixão reverberada das torcidas organizadas...
Enfim, se resistiu a todo esse impactante estrondo de fé, amor e paixão pela Águia Altaneira do Samba, aprovada está a nova estrutura da Passarela do Samba.
A comunidade portelense terá todos os motivos para erguer sua cabeça, apresentar-se cheia de esperanças e com fôlego de águia para desfilar em 2012.
Os sorrisos voltaram à quadra, isso é resultado flagrante de que alguma coisa mudou.
A nota triste desta semana derradeira foi o inimaginável acidente ocorrido nas imediações da escola, no último domingo, onde um carro desgovernado atropelou várias pessoas, cancelando o último ensaio de rua.
É um contraste se ver tanta luz e tanto amor nos corações portelenses diante da contrapartida de tamanha crueldade e tão profundas trevas desses corações assassinos que pilotavam o tal carro. Não se pode esperar outra coisa que não seja um pesado castigo divino a quem não respeita vidas, vive do crime e da malignidade.
Mas a Portela sabe superar suas dores, sabe tirar forças da jaqueira histórica, sabe abrir suas asas e voar para um céu mais alto e mais bonito do que esta terra dura e sofrida em que todos pisamos os pés pedindo sempre as bênçãos de Deus para sermos guardados!
Que toda a família portelense, de sangue azul, possa pisar com força e galhardia o chão da Sapucaí, capitaneada pela simbólica presença de Clara Nunes, adentrando o Novo Sambódromo e a Velha Bahia, marcando presença com seu vôo espetacular rumo à vigésima segunda estrela de seu glorioso pavilhão!
Agora acabou a brincadeira... é hora de subir o Pelô!
Salve nosso povo! Salve nossa gente! Salve a Portela!
É tudo nosso!!!
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A grande responsabilidade da Portela!
Eufóricos com um enredo sobre a Bahia, permeado por Clara Nunes e traduzido em rica poesia pelo samba-enredo mais belo dos últimos anos, os portelenses têm feito proezas dignas da escola que os inspira. Que o digam os ensaios de rua extraordinariamente contagiantes em Oswaldo Cruz e Madureira, além da irrepreensível apresentação (é o que se pode dizer) da comunidade portelense no seu primeiro ensaio técnico.
Uma avalanche de garra, paixão e devoção. A Portela é isso... é isso mesmo: é a procissão do samba derramada nas ruas. Seu hino 2012 já toma lábios, corações e mentes, arrebanhando mais e mais adeptos, encantando por onde passa. Como eu dissera desde a escolha na noite da disputa final, não é a Portela quem vai levar um samba para a avenida... é o contrário: é o samba quem a levará! Empurrará a Portela e fará a águia voar muito alto.
Inegavelmente ter, dentre os autores do samba, a graciosa força de Toninho Nascimento, deu alma e propriedade ao enredo – que cita Clara Nunes, uma das cantoras que mais gravou músicas de sua autoria, dentre elas sucessos imorredouros como “Conto de Areia” e “Fuzuê”. A Portela vem personificada de Clara Nunes, e essa alma de Clara era muito bem conhecida por Toninho, um de seus compositores preferidos.
Não obstante ter sido o ano de 2011 um ano de grande virada para a escola, um ano particularmente fecundo para a direção de harmonia e de carnaval da Águia, agora defendida por um carnavalesco de porte também, o grande desafio da Portela, a meu ver, transcende o cunho pessoal, particular da escola.
Mais do que simplesmente voltar com fúria e poder ao pódio onde se briga pelo campeonato, o que a Portela está fazendo neste ano de 2012 já é uma grande proeza. Ela está resgatando a magia e o encanto do quesito “samba-enredo” como fator determinante para o desempenho de um desfile.
O quesito samba-enredo, muitas vezes relegado a um segundo plano pelas mentes que concebem o carnaval, estava perdendo relevância e importância. Divididos entre “sambas animadinhos”, “cadenciados”, ou (o pior dos "elogios") “samba que rende” (?) - como se samba fosse saco de feijão – o quesito estava tão subordinado aos porquês e senões dos desfiles “técnicos” e “espetaculares” que se criou até um tal critério de “junção”, modismo recente para que um grupo de “mais entendidos do assunto” pudessem “consertar” o que os compositores “erraram”(?) na criação. Não se discute aqui a qualidade das “junções”, que, de fato, em muitos casos, safaram a onça de muita gente boa. O que se quer destacar aqui é o quanto a escola de samba passou a dominar e a exercer seu frio poder sobre a capacidade artística e criativa do sambista.
Ou alguém conseguiria imaginar Silas de Oliveira, Candeia ou mesmo Martinho da Vila (contemporâneo) autorizando que fundissem seus versos com o de mais 35 pessoas???
Sambas de péssimo quilate acabaram (e acabam) sendo elogiados quando, ao final das contas, seus defensores afirmam que "o samba rendeu bem para o desfile, embora não seja bom". Essa maquiagem acaba virando apologia da mediocridade, quando incentiva maus compositores a apenas descreverem em frases feitas os itens de uma sinopse, acreditando terem feito uma composição musical. O que, de longe se sabe, requer algo além desse raciocínio matemático.
O que parece ganhar vulto neste momento mágico que ilumina a Portela é a responsabilidade de defender o quesito como válvula e força-motora do desfile. É ele – o samba-enredo da Portela – quem tem dado unanimidade às passagens da escola, seja nas ruas de seu povo, seja no sambódromo, seja nos ensaios, seja nas apresentações, seja na mídia, seja na vinheta “reduzida de infinitivo” que a televisão apresenta. Pelo samba, no samba e com o samba, a Portela ganha importante força de desempenho, alavanca os setores da escola, empolga os segmentos, incendeia a bateria, acende o fogo riscado dos passistas: é nesse poder de quesito que a Portela entra, em 2012, deixando uma mensagem muito forte de que uma escola de samba – por ser “escola” – precisa dar o exemplo: ensinar, educar o sambista, o levando a valorizar a verdadeira arte do samba, da letra rica, da melodia comovente.
Quando pisar a passarela do samba como uma das favoritas e mais provavelmente a mais cantada escola de 2012, a Portela estará defendendo a bandeira do samba pelo ângulo de seu elemento fundamental: o samba-enredo. Estará consolidando a força de uma expressão artístico-musical que sobrevive à divulgação parca de um mercado fonográfico que ainda vê mais graça nas gaiatices dos axés de hospício, dos funks sem neurônio, dos breganejos empastelados, do “rock-errou” de calças coloridas, dos pagodeiros mela-cueca e das degenerações forrozeiras que “se te pegam”, realmente “te matam”.
A Portela, com o virtuosismo de seu samba-enredo, já chega injustiçada no carnaval. Porque samba-enredo é o quesito que mais nivela melhores e piores na hora do julgamento. Normalmente os jurados só fazem distinção de qualidade em fantasia, alegoria e enredo. Quando o quesito é samba, igualam obras primas a verdadeiros ultrajes ao gênero, dando notas dez inacreditáveis para uns e outros.
Seja como for, ao entrar nesse jogo, a Portela já disse a que veio. Saiu da sombra da jaqueira e. de lá, trouxe um samba de verdade, com propriedade e pedigree, passaporte carimbado... tudo direitinho como manda o figurino.
É essa a grande responsabilidade da Portela: consagrar novamente o samba-enredo como gênero, como força da escola, como alimento e energia da comunidade.
A coroa de campeã ainda não se sabe para quem vai. Mas certamente, com essa lição de samba, quem tem propriedade no discurso para reinar soberana e defender a bandeira do samba é a Portela.
Que, afinal de contas, já nasceu com sangue azul... e é, como todos sabem, a Majestade do Samba!
[ Hélio Ricardo Rainho é também colunista do SRZD Carnaval / Twitter @hrainho / Facebook Hélio Ricardo Rainho ]
2012: Portela Cheia de Encantos
Jamais um portelense de fato esquecerá o ano de 2011! Porque 2011 foi um ano divisor de águas para os filhos do ninho da águia mestra do samba.
Foi em 2011 que tivemos nosso sonho devassado pelas chamas de um incêndio que, pela primeira vez na história, nos tirou da disputa.
Mas, como a águia pisca do eterno sol, foi nas chamas e nas cinzas dessa fatalidade que reciclamos nossas fraquezas, revimos nossos pontos de vista e descobrimos que, sob as chamas da destruição, estavam as sementes da nossa ressurreição.
Éramos uma Portela ilhada, sozinha, dividida em dois lados que pareciam se ver, mas não se viam. De um lado, o presidente Nilo - que nos anos anteriores remoçou a escola com uma então inacreditável presença de novos torcedores, quadra cheia e valores de ouro revelados para o samba. De outro, uma torcida apaixonada, ensandecida, presente, mas sem vias de participação vital. Do fogo do incêndio vieram as águas turbulentas que, curiosamente, o enredo parecia descrever: “nem pirata aventureio, nem o rei pode mandar”. O rei e os piratas descobriram uma via de Mao única, adequaram-se às falas de uma mesma língua, e fizeram algo fundamental: acabaram de queimar, em novo fogo, o que havia sobrevivido às chamas do barracão, mas que jamais daria fruto.
Pois é ao morrer por inteiro que a semente, enfim, dá seus frutos.
Veio então a força da unidade, da união autêntica e verdadeira. De dois pólos paralelos (a força participativa e apaixonada dos Guerreiros da Águia e a militância reflexiva e retórica do PortelaWeb) surgiu a porção chão de escola que faltava influenciar o poder decisivo do nosso presidente. Essa força mobilizou setores, componentes. Sabiamente, em vez de promover um “golpe” ou uma “derrubada”, apostou no diálogo, na negociação, na reintegração de forças. Descobriu-se que havia mais necessidade de aliança do que qualquer outra coisa! Daí surgiu a ponte, o elo fundamental entre componente e diretoria para que, num grande renovo e numa retomada de pensamento há muito sonhada, a Portela se reinventasse, caísse nos braços de Clara Guereira, subisse o Pelô e chegasse à Bahia.
Sem quadra para ensaiar, devido às obras, a Portela inicia sua trajetória de feijoadas num clube, "vestido de azul e branco" por sua torcida, desde o primeiro evento, e de ensaios na quadra de uma queridíssima coirmã e afilhada, a adorável Carpichosos de Pilares, onde também estavam os guerreiros (sempre presentes em todos os eventos da majestade). Ali faz uma extraordinária festa para escolher seu hino, promovendo um turbilhão de emoções com a escolha de um samba que estava na alma, nos lábios, no corpo e nas lágrimas que desciam o rosto dos apaixonados portelenses como uma cachoeira de paixão e admiração pela escola. Como toda grande batalha é digna de um grande hino, veio a nós essa realeza poética em notas musicais, buquê de flores brancas melódicas que parecem adornar o jarro de nossa ida simbólica às festas da Bahia... um lindo samba-enredo-de-roda com três refrões, construção arrebatadora que seus próprios artesãos parecem ainda não entender o porquê de terem sido contemplados com tamanho presente sagrado.
Numa era de ensaios muitas vezes precificados em escala alheia ao próprio componente humilde do samba, a Portela novamente subverte a métrica imposta, ignora a sanha da arrecadação e promove, nas ruas de Madureira, a céu aberto, os mais emocionantes ensaios de rua de seus últimos anos. A multidão se encanta, a torcida leal se agiganta e chora; ritmistas, passistas, baianas, componentes e compositores exibem, no meio da rua, a glória histórica do bairro de Oswaldo Cruz, o orgulho da sede da Portelinha, o busto engalanado do patriarca Paulo da Portela.
Mais do que a renovação de seus quadros, de seu gerenciamento e de sua visão de carnaval, a Portela recuperou seu orgulho e, com esses ensaios de rua às sextas-feiras, deu vida efetiva ao seu enredo que diz que “o povo na rua cantando, é feito uma reza um ritual”. É mesmo! A “procissão do samba” está lá! Quem ainda não conferiu, precisa correr pra ver...
“Não há espaço apenas para um, pois TODOS é que fazem a diferença”. Essa frase sigificativa do líder Marcelo Moura, nosso presidente de torcida, voz importante nesse eco de renovo, é reveladora. Ela resume e explica o que todos nós precisamos entender para o futuro de uma Portela melhor.
A escola precisa recuperar o prestigio de seus bambas dentro de sua quadra, recuperar a voz de seus componentes dentro de sua estrutura, iluminar sua passagem com os pés de bailados mágicos de seus irrepreensíveis passistas riscadores de chão, lavar a alma da passarela com a passagem radiante de suas baianas (este ano mais “baianas” que nunca), reiterar o orgulho de nosso pavilhão estendido com arte e graça na leveza de nosso casal garboso, estremecer a avenida com o canto singelo de nosso intérprete e o estrondo trovejante de nossa extraordinária bateria.
E havemos de fechar este 2011 com sonhos de rever Clara Guerreira, que, mais do que estrela saudosa e mortal, é uma instituição, patrimônio vivo de nosso samba, de nosso canto, vestida de azul e branco a nos conduzir avenida afora para, quem sabe, a conquista da 22° estrela de nosso glorioso pavilhão.
Felizes, orgulhosos, renovados e fortes. Nós, da Pioneira da Sapucaí, os Guerreiros da Águia, oito anos de amor e dedicação à nobreza de sangue azul da Majestade do Samba, com o sentimento da tarefa cumprida, após atender o apelo de nossa Comunidade, na perspectiva de perder seus quesitos, sua alma, juntos com a Equipe Portelaweb, para que não houvesse o desmanche de nossa Escola, atendemos o pedido do Presidente Castanheira, resolvemos o problema internamente e agora retornamos,a nossa identidade, ao nosso papel, de torcida, claro, sempre prontos para atender nosso povo, mas desejando que nunca mais precise de algo parecido!
Pois..."Portela cheia de encantos...vestida de azul e branco...Madureira sobe o Pelô..."
Feliz Natal, Feliz Ano Novo a essa família cheia de encantos chamada PORTELA!
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TEXTO MARCELO MOURA:
Não tenho o "dom" de nosso querido Helinho, mas vou deixar o meu recado para 2012 amigos:
"O que passou, passou, o fogo, do incêndio e de nossa batalha junto com os amigos da Portelaweb e portelenses de todo Brasil, pelas redes sociais, apagou. Ficou a Escola com seus quesitos, e com a vinda do maravilhoso Paulo Menezes. Uma Portela mais descentralizada com a formação da Equipe de Carnaval!
Problemas, sabemos que ainda existem, mas o "clima" que nossa Escola vive hoje, é uma "chama" que extravaza fronteiras, contamina sambistas com o nosso samba nota 1000, coisa que NINGUÉM poderia imaginar há 10 meses atrás!
Esperando que cada um faça o seu trabalho, aguardaremos ali no setor 3, como há 8 anos, uma Portela de alma guerreira, e desejando, APELANDO, para que o PROJETO já visto por vários de nós, de nosso carnavalesco, SAIA DO PAPEL, pois aí meus amigos teremos a CERTEZA, de que, com nosso chão, Gilsinho, Lucinha e Rogerinho, Marcio Moura, Nilo sérgio e nossa bateria, além dos anônimos do barracão vamos fazer um desfile INESQUECÍVEL! Desprovidos de toda vaidade, POIS TEMOS SIM, QUE SER HUMILDES, MANTER A UNIDADE E O FOCO!
Obrigado aqueles que lutaram por manter nossa Escola. Alguns, não se encontram por perto, mas foram fundamentais para manter a unidade! Obrigado amigos da Portelaweb e das Redes Sociais, que ajudaram não só na permanência de nossos quesitos, mas também pela escolha da obra prima eleita por vários críticos como a melhor de 2012! E obrigado a TODOS aqueles que vem trabalhando, dia a dia para concretizar o sonho de TODOS nós portelenses, de sentirmos ORGULHO de ver nossa Escola linda, competitiva e guerreira no Carnaval 2012!
Obrigado, principalmente a toda TORCIDA GUERREIROS DA ÁGUIA, que sem descanso, esteve onde a Portela estavivesse, vestiu o River de azul e branco, deu cara de Portela a afilhada Caprichosos, participou do coro, vinheta com bolas e bandeirões e estão presentes a TODOS os ensaios de nossa Escola, nas sextas e domingos, neste ano tão difícil, sem quadra e sem barracão!
Tudo passará, mas na história, irá sempre constar que a GUERREIROS, junto com a PORTELAWEB, não abandonaram sua escola, "lutaram" para manter a UNIDADE, num momento tão crítico, que o desfecho poderia ser intensamente triste e fatal!
Mas como um Guerreiro não foge a luta...MADUREIRA SOBE O PELÔ!!!!!!!!
Marcelo Moura
DE 79 A 2012, UM ELO DE INSPIRAÇÃO PORTELENSE!
O distante ano de 1979 percorre minha mente! Como pesquisador de escolas de samba, resolvi estudar aquele desfile da Portela, que tinha um enredo de título sugestivo: “Incrível! Fantástico! Extraordinário!”.
Para quem não sabe (e eu era muito menino, também, na época, mas sei), o título desse enredo da Portela era também título de uma coluna do jornalista Almirante muito popular na imprensa carioca. Ela revelava contos de terror baseados em histórias reais, e eram assustadoras. Levei muitos anos achando que o enredo tinha ligação com essa coluna, mas não tinha nada a ver. O belo enredo da Portela em 1979 falava do carnaval como uma festa de superação e extraordinária criatividade do povo brasileiro. Belíssima alegoria de nossas escolas de samba, representada dentro do próprio desfile. Pura metalinguagem!
Em minhas pesquisas, deparei-me com o vídeo do belíssimo desfile da escola no YouTube (que você pode acessar no link http://www.youtube.com/watch?v=3E0ulFCq36U . Fiquei extasiado! Um desfile de Portela com grandeza de Portela, com magia de Portela, com riqueza de Portela. Esplendoroso e atual, aquele desfile poderia ser confundido com a grandiosidade dos desfiles atuais, sem nenhum prejuízo de valor.
Estudei um pouco mais sobre o desfile, facilitado pelos arquivos do JB no Google e pelos excelentes textos de análise dos desfiles ano a ano no site PortelaWeb.
Resumindo o que aprendi: a Portela daquele ano estava procurando um “reengrandecimento” de sua estrutura, voltando-se de seu inegável peso de escola histórica e tradicional para a necessidade de se atualizar e se modernizar. Para tanto, mirou-se na imagem da ascendente Beija-Flor de Joãozinho (na época, com Z) Trinta. Numa ação de grande ousadia, a escola de Madureira contratou o figurinista Viriato Ferreira, então parceiro de Joãozinho, para assumir o carnaval inteiro. Foi ali que Viriato iniciou uma fase áurea, esplendorosa da Portela, passando por obras-primas inesquecíveis como “Hoje Tem Marmelada” e “Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite”. A Portela de 1979 foi aclamada nas ruas, dada como campeã certa nas capas de jornais. Os registros dão conta de que, ao fim de sua passagem, o povo acoplou-se às últimas alas, compondo espontaneamente o bloco e sujos que o enredo sugeria. Uma apoteose! Uma consagração! Ao final, nem as polêmicas envolvendo notas escusas de jurados, nem a 3° colocação sob protestos puderam ofuscar a glória daquele desfile. Assista ao vídeo no YouTube, ouça os comentários dos analistas da época e entenda a riqueza que foi!
Como portelense apaixonado e de alma lavada por esse samba primoroso que temos para 2012, confesso que as memórias e feitos da Portela em 1979 me trouxeram alento. Naquele ano, como neste de agora, a Portela queria se renovar, queria se engrandecer, queria se reestruturar para a disputa. Em 1979, como em 2012, estava reafirmando sua identidade com um enredo que misturava a magia do carnaval a sua própria magia pessoal. E trazia um carnavalesco de trabalho requintado e elogiado para ter a oportunidade, pela primeira vez, de despontar em um grande desafio.
Naquele ano de 1979, a Portela dizia, em seu samba, que iria se “abraçar com a cidade”, porque a “alegria já contagiou” e “a ordem do rei é cantar quatro dias sem parar”. Neste 2012, a mesma Portela chega “com Clara Guerreira à Bahia” enquanto “Madureira sobe o Pelô”.
1979 se reflete em 2012... e faz Madureira, de novo, sonhar! Parece que o doce Paulo Menezes está revivendo a mística de Viriato, chegando para dar à Portela a alma e as cores da escola de samba encantadora e emocionante que ela é. Barroco, requintado, caprichoso no acabamento plástico de seus trabalhos, Menezes poderia se tornar o terceiro Paulo da constelação portelense, formando uma trilogia com o Paulo fundador (o Benjamin de Oliveira) e o Paulinho poeta (da Viola).
Apaixonado pela Águia e fazendo essa viagem no tempo, posso até acreditar: “...E o Povo na Rua Cantando, é feito Uma Reza, Um Ritual” tem tudo para ser um desfile... INCRÍVEL, FANTÁSTICO, EXTRAORDINÁRIO!
Hélio Ricardo Rainho (@hrainho no Twitter) é colunista do SRZD Carvaval
Portela, a Bahia te chamou!
Um clima de apreensão envolveu a apresentação do primeiro samba concorrente a hino oficial da Portela para o carnaval 2012. Foi justamente quando o samba dos compositores Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo alinhou sua torcida para iniciar a apresentação que o inesperado aconteceu: a quadra ficou sem luz. Foram intermináveis quinze minutos.
Hélio Ricardo Rainho
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Disputa de samba: a hora é esta, Portela!
A Águia de Madureira passou por um inicio de ano turbulento. Após o incêndio em seu barracão na Cidade do Samba, ocorrido em uma situação dessas cheias de mistério que fazem parte do panteão do carnaval, uma sequencia de cobranças do prefeito e a pressão interna de setores da escola fizeram com que houvesse uma grande reformulação de seus quadros para o carnaval 2012. A Portela não mudou de presidente, mas trouxe um novo carnavalesco e repensou, talvez na maior de suas modificações estruturais, o modelo de gestão descentralizada que acabou implantado.
Numa entrevista concedida com exclusividade ao site Guerreiros da Águia, reproduzida no SRZD Carnaval na íntegra, a diretoria animou os portelenses, prometendo liderar, para 2012, uma escola competitiva, aguerrida, no nível de profissionalismo que hoje se requer para a realização do espetáculo de carnaval.
Neste momento, a Portela escolhe seu samba-enredo. Que já vem com pinta de antologia em seu nascedouro, dada a riqueza de seu enredo (que graças a Deus não é o Barra Shopping, nem a Amy Winehouse, nem o bonde de Santa Tereza nem – arghh!!! – Roberto Medina e seu Rock in Rio). A Portela desce a avenida falando do legado cultural e festivo da Bahia, apresentada por ninguém menos do que Clara Guerreira! É o tipo de enredo que cai como luva para os poetas de Oswaldo Cruz e Madureira, capaz de não apenas emocionar mas também de render belas composições. Algumas delas já estão encantando os torcedores.
A disputa de samba na quadra é um termômetro considerável na preparação de uma escola para seu desfile. Mas também é cercado de mistérios, como até se pode citar um exemplo recente. Ano passado, Ivo Meirelles, na coirmã Mangueira, parou a quadra para anunciar o samba que ele queria. Foi vaiado. O samba passou, foi um dos mais belos do ano e levantou a avenida. Esse gesto não é regra, é exceção. Na Portela (não sei se mais ou menos do que em outras escolas) disputa de samba sempe ferve. Já fiz sambas e fui integrante da ala dos compositores nos anos 80-90. Fui parceiro de Serginho Meriti, Bira do Aço, Colombo e sobretudo meu grande mestre e amigo, o saudoso Jacyr da Portela. Alguns nem se lembram de mim, porque eu era muito menino. Não importa. Eu fazia quase por lazer, mas via muita ira e indignação sempre. Acho que é DNA do samba. A rivalidade, a disputa, a emoção de querer cantar seu hino na Sapucaí.
Como esse termômetro é estranho, penso que possa ser o grande divisor de águas para atestar em definitivo, para sua comunidade, que a Portela está no caminho certo. Ano passado ganhou o samba que eu julgava, em particular, ser o melhor. Eu não era amigo de ninguém na hora da escolha: cantei e sambei todos. O que mais me arrepiou foi o vencedor. Não pretendo entrar aqui no mérito daquela escolha, mas reitero minha opinião de que a lisura na escolha de samba deste ano pode fazer uma grande - sim, uma gigantesca! - diferença no chão da escola. Temos belas obras, mas certamente alguma delas sobressairá (já sobressai?) e estará (já está?) na boca do povo.
Na kizomba das quadras, torcer pelo samba do amigo é um afago, uma gentileza. Lembro imediatamente da nossa querida Betinha, figura clássica da Portela e da Guerreiros, declarando seu carinho pelos sambas do Chico. Eu mesmo procuro sempre os sambas do Noca, Monarco, Mauro Diniz ou Serginho Procópio para saber como estão. Natural: coisa de admirador da obra. Porque a isenção na escolha não é de nós, torcedores: é de quem efetivamente tem poder para escolher o samba. Precisa fazê-lo com a isenção e a transparência que se requer de um momento tão mágico, tão único, tão singelo da escola. Para que a festa seja única, maior, mais majestosa!
Já ouvi dizer, muitas vezes, que a maior festa da escola de samba não é o desfile, mas a escolha de samba na quadra. Infelizmente é uma festa doída para alguns: nem todos podem ganhar. É por isso que o desejo comum é: “que vença o melhor”! Sempre!
Já que a Portela quer mostrar para torcedores, segmentos e mesmo para a grande imprensa que ela mudou, que ela está mais organizada profissionalmente para 2012, a hora é esta. Fazer justiça não com as próprias mãos, mas com os ouvidos: ouvir o samba mais cantado, o mais querido, o mais pertinente ao enredo e, com absoluta justiça, definir o hino para desfilar.
Toda escolha, é claro, é subjetiva. Vale registrar.
Subjetiva, sim. Tendenciosa, jamais.
Por isso acreditamos que a Portela, por estar no ano em que suas asas ruflam em direção aos caminhos do sol, dará um grande passo, na escolha de sua obra-prima, para já entrar na avenida com quatro notas 10 asseguradas. Não apenas na caneta do jurado, mas fundamentalmente no coração de seus seguidores.
Avante, portelenses, para a vitória!
Hélio Ricardo Rainho
“É Clara Na Portela... Lá vem Trovoada!”
Os céus de Oswaldo Cruz e Madureira estão mais azuis. Nuvens brancas se encontraram harmonicamente, desenhando uma águia com uma coroa na cabeça e braceletes nas patas. A águia está vestida de rainha! As asas parecem ruflar rumo a um vôo maior, e a glória de um povo vitorioso e feliz parece retumbar em sorrisos envaidecidos que vibram a cantar: “salve o manto azul e branco da Portela!”.
Com esse enredo “...E o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual”, a Portela se reveste da majestade que sempre lhe coube para apresentar um enredo digno de suas tradições. Vai falar de Bahia, mas decidiu não ir sozinha para a Avenida. Trará consigo a glória de uma das maiores artistas da história do povo brasileiro, um mito transcendente no panteão portelense: a inesquecível Clara Nunes. É Clara, apaixonada e encantada pela sua Portela, fazendo a escola brilhar na avenida até mesmo depois de morta.
Vale comentar que esse enredo tem uma característica muito peculiar. Recentemente vimos a Vila Isabel falar de Noel Rosa (“Noel: A Presença do Poeta da Vila”, em 2009) e a Mangueira falar de Nélson Cavaquinho (“O Filho Fiel, Sempre Mangueira”, em 2011) com uma proposta de enxertar, na narrativa, a própria “presença” dos homenageados. Era como se, além de homenageados, eles estivessem ali, presentes. Na Vila, o carnavalesco Alex de Souza associou ao enredo uma visão de que os malandros e boêmios da Vila Isabel de hoje ocultavam e denunciavam (contraditoriamente) a presença de Noel – no bairro e na escola. Eu moro em Vila Isabel e sei que isso é fato! Já a Mangueira trouxe um samba em primeira pessoa, com o próprio Nélson Cavaquinho apresentando o enredo proposto pelos carnavalescos Mauro Quintaes e Wagner Gonçalves.
A diferença desse enredo que o excelente Paulo Menezes desenvolveu para a Portela é que, embora citando Clara Nunes e a consagrando dentro da proposta desenvolvida, o tema é outro. Ou seja, o enredo é a Bahia. O que se faz, na verdade, é algo inédito: se, viva, Clara foi um baluarte da escola e a defendeu aos quatro cantos sem temer quebrantos, como guerreira do samba que era, agora ela tem a oportunidade de apresentar e defender a escola... mesmo morta! Ou seja, essa proposta de enredo é a primeira homenagem transcendental a um bamba de que se tem notícia! Serei redundante para transparecer o raciocínio desta análise: o enredo da Portela não é Clara Nunes... é Bahia! Mas como Clara Nunes é eterna na Portela, como ela se faz presente nos ensaios e na lembrança eterna de seus correligionários, esse primor de enredo parece questionar a lógica de vida e dizer: “gente, a Clara não morreu... olha ela aí, apresentando o desfile da Portela na Avenida”!
Emocionante!
Em 1993 desenvolvi, para o Museu da Imagem e do Som, o Projeto Clara Nunes. Eu era um menino de 24 anos na época. Junto ao artista plástico Barthô, mostrei uma exposição de fotos e vídeos da cantora no Japão, além da peça teatral “Clara Nunes – O Despertar da Guerreira”, escrita e dirigida por mim. Não era uma biografia tradicional. Na peça, que lembrava os 10 anos de morte da cantora, ela voltava ao mundo por breves momentos para anunciar seu canto de paz e esperança por dias melhores. Sessões lotadas, lágrimas e gritos de “bravo”. As atrizes Patrícia Alves e Lena Oliveira, que a interpretaram em diferentes temporadas, eram assediadas como se fossem a própria Clara, por multidões apaixonadas. A peça ficou em cartaz por um ano e ganhei do Governo do Estado o título de “Amigo de Clara Nunes” pela iniciativa. Foi meu primeiro trabalho com teatro profissional!
Sei o que é trazer de volta Clara Nunes para um povo que a ama. Sei o que é trazer de volta uma estrela de primeiríssima grandeza que, se estivesse num país com o mínimo de apreço por seus valores reais, jamais se permitiria esquecer uma data de aniversário da cantora sem uma homenagem qualquer que fosse. O espetáculo encerrava com Clara cantando “Portela na Avenida” e com as baianas da Portela entrando em cena. Era literalmente uma catarse. O teatro virava passarela, avenida... sei lá. Porque a magia de Clara com a Portela é de uma intensidade inexplicável, exuberante. A morte não foi capaz de quebrar tão grande amor entre escola e torcedora!
É hora dos otimistas entrelaçarem as mãos e vibrarem com o caminho traçado pela azul-e-branca para reencontrar suas tradições. É hora dos pessimistas e assustados, dos acuados pelo passado e pelas circunstâncias, retirarem de si (e dos outros) a energia negativa, as palavras contrárias, as más vibrações travestidas de “precaução”... é hora de trocar o “só quero ver” pelo “EU VOU VER”! Embora não goste muito do contexto original dessa frase (política), diria que é hora “da esperança vencer o medo”. Chega de abalroar a escola com críticas internas, dando força aos inimigos externos para depreciar nosso pavilhão!
Acordem, Oswaldo Cruz e Madureira!
Parabéns à nossa diretoria, ao nosso carnavalesco e aos portelenses convictos – “guerreiros” citados até na sinopse! – por essa “virada de jogo” com cartas azuis e brancas da vitória nas mãos!
Uma Portela que entra na disputa com um carnavalesco do quilate de Paulo Menezes, reconhecido por sua inquestionável qualidade plástica e requinte nos moldes de Arlindo Rodrigues, amparada pelo sangue novo e impetuoso desses meninos Júnior Escafura e Alex Fab, enche de alento os corações azuis apaixonados pela águia de Madureira.
E se essa Portela ainda é apresentada por ninguém menos que sua musa eterna, já é possível imaginar o povo nas ruas cantando, feito uma reza ou ritual.
É Clara na Portela... lá vem trovoada!
A NOVA PORTELA VEM AÍ!
Para que havemos de mentir / O subúrbio está é bom / Venha ver, não é história / Se porventura estou errado / Dou a mão à palmatória”Os versos célebres do professor Paulo da Portela – mestre no samba e na criação do universo azul e branco que tornou-se a sua (nossa) escola – bem poderiam descrever o que se dará em Oswaldo Cruz e Madureira após a “ressurreição do Portelão”. Finalmente, após longo período de especulações e boatarias, a quadra do endereço antológico na rua Clara Nunes entrou em processo de reconstrução.
Em um ano em que a Portela prometeu a si mesma um ímpeto de renovação e de mudanças, é de se esperar que essa obra seja uma ponta de iceberg no remodelamento mental de toda a estrutura da escola. Porque de nada adiantaria ter uma quadra tinindo, cheia de exuberantes novidades, se o padrão de desfile e de disputa da escola não sofresse considerável alteração. É essa expectativa que cerca todos os corações e mentes que pulsam quando ouvem o som retumbante da águia altaneira a ressoar!
Olhar as primeiras imagens de demolição do salão que havia ao lado da quadra principal já trouxe um incômodo. A gente tem zelo por aquele patrimônio! É solo sagrado! Sabemos, é claro, que a nova construção dignificará ainda mais o templo do samba, mas é impossível não lembrar das feijoadas servidas ali naquele salão, dos stands de vendas de fantasias das alas da escola, dos eventos promovidos pelos passistas, ou mesmo daquela frase gloriosa que jamais deveria ter saído da parede frontal do salão: “Aqui deu frutos a semente que a Velha Guarda plantou”.
Aliás, acho que, a exemplo do portão de entrada onde estão os bustos dos vultos ilustres da casa, a nova quadra da Portela merecia mesmo ter um espaço de tributo à Velha Guarda Show. É bom lembrar que, mesmo nos momentos em que a escola esteve desacreditada e longe da mídia, era gloriosamente representada por seus antigos baluartes, que sempre mantiveram acesa a chama da eterna campeã dos carnavais. Pode-se dizer que o que faz a Portela sobreviver a todos esses anos sem títulos (por erros seus e por políticas do samba - é bom que se diga!) é a força do samba de raiz, verdadeiro e autêntico, de seus bambas da Velha Guarda. A Velha Guarda da Portela é um símbolo de resistência do samba e da própria Portela. Poucas escolas podem se gabar de ter um grupo tão prestigiado e tão célebre como esses músicos da escola. Faz sentido ter-se preservado, no habitat natural da águia, o seu imorredouro celeiro de bambas!
Tem a Portela essa missão de reencontrar-se com os títulos, com as vitórias. E esse trabalho requer planejamento e renovação. Lembro que estive no barracão da escola uma semana antes do incêndio, para uma reunião, e fiquei na recepção lendo uma revista que dissecava o enredo sobre tecnologia com que a escola desfilou em 2010. A proposta era incrivelmente ousada e renovadora, havia muita propriedade na pesquisa, a proposta era conceitualmente perfeita. Lendo tudo aquilo, vendo os croquis na tal revista, fiquei pasmo: não tinha visto nada daquilo retratado na avenida. Um enredo que poderia até ter ganho um estandarte de ouro se fosse efetivamente executado com a mesma competência com que fora projetado. Dali me veio uma lição: é preciso que os homens de carnaval da escola dêem suporte, substância... ou, como diriam os antigos, “sustança” para que a escola possa desenvolver, em seu barracão, o carnaval que muitas vezes não sai do papel.
Neste momento o enredo que está em voga é sobre as serras gaúchas. Particularmente ainda preferia o centenário de Paulo da Portela, já passado e não falado. Mas não acho que seja má escolha falar das serras gaúchas. Até andei me indispondo com críticos exasperados, em fóruns de internet, por causa disso. É possível folclorizar esse enredo, ampliar seu espectro, preencher a obviedade de um tema a princípio apenas turístico com outros elementos culturais pertinentes, a ele relacionados. Temos um carnavalesco requintado e em ascensão, inclusive “queridinho” dos críticos. A questão é vê-lo realizando um trabalho dentro das proporções e das proposições de seu texto original.
E também é bom lembrar ao senhor prefeito que, tão importante quanto reformar a quadra da Portela, é reconstruir o barracão incendiado na Cidade do Samba. Não bastasse o mico de uma construção com aquela pompa ter virado cinzas como nenhuma outra espelunca do Cais do Porto jamais conseguira virar, fica aqui a nossa dúvida: teremos uma quadra poderosa e não teremos barracão para construir o nosso carnaval?
Enfim, povoados de expectativas, arregimentados por essa eterna paixão, aguardaremos o desenrolar dos fatos para, enfim, entendermos afinal: como será a Nova Portela que promete sobrevoar a passarela do samba, em 2012, com garras afiadas para a disputa das campeãs?
Bem dizia Mestre Paulo que o subúrbio está em festa! Esperamos todos, de Oswaldo Cruz a Madureira, que essa águia encantadora, reluzente de paixão, reflita o apoio e incentivo de seus fieis correligionários, e ascenda novamente ao topo das vitórias. Que é, afinal de contas, o seu devido lugar!
Hélio Ricardo Rainho
siga-me no @hrainho
leia-me no www.bolapraquemsabe.com.br e no www.supervasco.com
UM BRINDE AOS GUERREIROS DA ÁGUIA!
"Pois se o azul é poesia
E se o branco é a paz
Minha Portela querida
Um poeta da vida
O que vai querer mais"
É assim, vestido de azul, sentado diante de uma tela, ouvindo o bamba Nogueira cantar em versos arquitetados com paixão, que expresso meu orgulho de escrever a primeira crônica do nosso site, da nossa torcida, da nossa escola!
É assim, existindo neste azul, repousado neste branco, Portela, que sou franco em dizer: ouço agora o tilintar das conchas da eterna Clara Nunes, o batuque seco e indignado de Candeia, a voz grave do monarca Monarco, a viola encantada de Paulinho da Viola, o “molho” da bateria do Mestre Marçal. E me vêm à memória as fantasias esplêndidas de Viriato, enchendo a passarela de azul e enchendo Madureira de orgulho!
Há reminiscências de todos os bambas, da força de Natal, do pulso de Paulo da Portela, da Veha Guarda formosa e faceira, da divina Elizeth Cardoso, de Maria Lata D’Água, do legado de bambas eternos da azul-e-branca Portela nessa torcida Guerreiros da Águia.
Quando me convidaram para ser o primeiro cronista do site da primeira torcida de escola de samba do país, vi-me na posição honrável – tanto quanto de grande responsabilidade – de empunhar os escritos e guerrear com eles em prol da águia maxicampeã dos carnavais. Em tempos de rejuvenescimento, e até ressurreição, é grande o desafio!
Porque Guerreiros da Águia são todos os filhos dessa escola cuja história é linda. Mas o mistério do samba não é maior do que o mistério da própria Portela. Essa escola “tem tantas páginas belas”, como registra o poeta Monarco. Mas quando João Nogueira diz que “a Portela é para mim o próprio céu”, ele define algo mais. Repetido por Paulinho da Viola, inebriado ao dizer “não posso definir aquele azul, não era do céu, não era do mar”. Vívido até hoje na intensidade de intérprete de Clara Guerreira ao dizer que a Portela na avenida “vai se arrastando/ e o povo na rua cantando / é feito uma reza, um ritual”.
É que a Portela não se explica por seus muitos títulos nem por suas revoluções nem por sua rica história.
A Portela simplesmente não se explica. Porque paixão não se explica.
E quando ela desce à avenida, com seus gloriosos passistas de sapatos de fogo azul incendiando a pista, a lágrima desce, o sorriso aparece. Fica tudo azul...
Deve ser por isso que uma moçada forte, elegante, apaixonada e decidida resolveu firmar essa paixão de ver a Portela e, assim, abriu mão de estar no próprio desfile para contemplá-la de cima, das arquibancadas, arregimentando gritos, empunhando bandeiras, erguendo mãos aos céus para aplaudir sua escola. Deve ser por isso que essa moçada guerreira, capaz de enfrentar o sol rascante de meio-dia nas feijoadas do Portelão, optou por ficar do alto, vendo a águia soberana voar, admirada por inteiro. E se fez torcida organizada. Desorganizada nos batimentos cardíacos, desorganizada nas lágrimas de paixão, desorganizada no coração. Mas organizada na arquibancada do Sambódromo.
E assim, vista lá de cima como rainha que sobrevoa a avenida, a escola se engrandece! Rogerinho e Lucinha bailam com mais vigor, Gilsinho emite seu mais vibrante tom, Mestre Nilo incendeia os ritmistas, Valci e Nilce sambam como pássaros que voam diante de uma ala majestosa de passistas, Tia Dodô volta a ser a moça elegante e virtuosa de 1935, Carlinhos Reis redobra a elegância, as baianas rompem mais afiadas, as crianças se soltam... a escola é mais escola com uma torcida assim!
Ficamos felizes porque a era é outra, o samba está no século XXI, os meios de comunicação abrem portas e espaços para que possamos falar da Majestade em outros canais. E aqui estamos, neste site, prestigiando as glórias e memórias da Portela.
Somos todos esses Guerreiros da Águia que, agora, ocupam um lugar certo aqui no universo web, onde a águia também voa virtualmente.
Mas ninguém se iluda: o vôo é virtual, mas a paixão é real!
Obrigado ao Marcelo, à Jany e a todos os Guerreiros da Águia pela honra do convite!
Estou aqui, feliz e apaixonado, para escrever com paixão e carinho, amizade e lealdade.
Somos a Portela!
Eu, eles... vocês que nos acompanham!
Hélio Ricardo Rainho
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Última atualização em Seg, 02 de Abril de 2012 17:16 Escrito por Administrator Sex, 20 de Maio de 2011 20:40

























